Alberto Duque Portugal: Inovação para destacar Minas na sociedade do conhecimento

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Fazer com que o Estado de Minas Gerais se torne referência em conhecimento e inovação em setores estratégicos é o desafio do secretário de Estado de Ciência, Tecnologia e Ensino Superior, Alberto Duque Portugal. Engenheiro agrônomo formado pela Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ) e doutor em Sistemas Agrícolas pela University of Reading, Inglaterra, já ocupou os cargos mais importantes do sistema agroindustrial brasileiro. Foi secretário executivo e ministro interino da Agricultura, Pecuária, Abastecimento (MAPA), diretor executivo e presidente da Embrapa, diretor da Agência de Inovação da Unicamp (Inova); diretor executivo do Conselho Nacional do Café (CNC) e secretário-adjunto de Estado de Agricultura, Pecuária e Abastecimento de Minas Gerais (SEAPA). De jeito simples e apaixonado pelo café, também é um militante ativo das redes sociais, incentivador da integração entre pessoas e da democratização do conhecimento. Princípios que nortearam a criação dos oito polos de Excelência espalhados por todo o Estado. Nesta conversa, o POLO DE EXCELÊNCIA DO CAFÉ desvenda um pouco mais das características de um secretário intuitivo e visionário…   

 

POLO: Como se trata de um modelo inovador, o Polo de Excelência do Café tem se consolidado de forma colaborativa, com a participação e união entre governo, pesquisa e mercado. Como o senhor avalia este desempenho e atuação?

PORTUGAL: A inovação é o grande desafio da atualidade, em qualquer país. O conhecimento tem avançado em uma velocidade tão grande, com uma dinâmica que tende ao infinito… Mas o conhecimento sozinho, produzido entre quatro paredes, não é mais suficiente. É preciso que ele gere inovação para o mercado, que chegue às indústrias, às fazendas… Neste sentido, os Polos de Excelência são fundamentais para preparar o Estado nesta corrida rumo à excelência. A única forma de acessar e processar o conhecimento de forma competitiva ao processo produtivo é por meio da integração de competências. A fórmula é realmente da construção coletiva do conhecimento, para atingir mais rápido nossos objetivos. Quanto ao desempenho, depende muito da percepção das lideranças da região ou setor, o que exige uma mudança de postura.

 

POLO: É mesmo uma mudança de paradigma. A própria universidade tem revisto o seu papel, incentivando a formação de novos pesquisadores/empreendedores. Este é o caminho?

PORTUGAL: A inovação é o desafio e o foco da Secretaria de Ciência, Tecnologia e Ensino Superior. A idéia é transformar o conhecimento em um produto de interesse e que traga benefícios diretos para a sociedade.

 

POLO: Isto não quer dizer que a ciência básica perde sua importância?

PORTUGAL: De maneira nenhuma. A Fapemig que tinha entre 30 e 40 milhões de reais para tudo, no governo Aécio Neves, neste último ano, este orçamento saltou para 120/130 milhões de reais para a área de Ciência e Tecnologia diretamente. O recurso para inovação também vai para a comunidade científica e tecnológica. A área de Ciência e Tecnologia continua sendo cuidada com um volume de recursos muito maior que nos anos anteriores. O que temos agora é uma nova estrutura voltada para atender projetos de inovação em áreas estratégicas para o Estado.

 

POLO: Minas Gerais já é excelência em cafeicultura… o próximo passo é se tornar referência nacional e internacional?

PORTUGAL: Esta é a diferença na forma de agir e pensar. Quando se tem diversas competências trabalhando de forma isolada, dificilmente elas se tornam referência. O que nós queremos é que em qualquer lugar do Brasil ou mundo, quando se pensar em café, seja em tecnologia, treinamento ou informação, Minas Gerais seja a referência. Ou seja, quando uma empresa quiser montar um negócio de alto valor agregado para a cadeia café, Minas também será a referência. A região de Lavras e o Polo de Excelência do Café serão lembrados como ambiente propício para isto. Este é o grande desafio.

 

POLO: Minas tem sorte de ter um secretário 2.0, antenado e consciente da importância da WEB?

PORTUGAL: (risos) Talvez eu tenha tido a felicidade de me cercar e conviver com pessoas que têm a percepção muito clara da mudança que está acontecendo no mundo, sobretudo na questão de acessar e processar a informação. Tenho a consciência de que é este o caminho, vivemos uma revolução da inteligência coletiva, da inovação aberta. Quem perceber isto e conseguir fazer esta construção vai andar mais rápido. Não adianta conhecimento ou patente não aplicado. Sozinhos não seremos suficientes para enfrentar os desafios que estão por aí. Assim, estamos criando uma equipe e um movimento de incentivo ao compartilhamento. Eu estava no CNC e participei da criação da Rede Peabirus e a gente vê hoje o sucesso da Comunidade Manejo da Lavoura Cafeeira, que se tornou uma referência no mundo hoje.

 

POLO: Minas sai na frente para a conquista de seu lugar na sociedade do conhecimento?

PORTUGAL: A sorte sim foi de participar de um governo que entendeu que este era o momento da ciência, tecnologia e inovação. O que resultou na continuidade de recursos em meio a cortes significativos em outras áreas. No ano passado este recurso foi até ampliado, com mais 30 milhões no orçamento da Fapemig. Esta é uma decisão política forte deste governo.

 

POLO: Na Embrapa você presenciou a criação do Consórcio Brasileiro de Pesquisa e Desenvolvimento do Café, hoje Consórcio Pesquisa Café, que foi um modelo inovador de integração de competências. Qual é a diferença entre o Polo de Excelência do Café e o Consórcio?

PORTUGAL: Todos os dois nascem desta idéia de que só a parceria, integração e junção de forças criam condições para avançar. O Consórcio foi assim pensado, por isso integrou mais de 40 instituições do setor de pesquisa, ensino e extensão. Realmente foi uma experiência inédita e vitoriosa. A diferença é que o Consórcio nasceu como um programa de pesquisa, com a forma de desenvolver pesquisa. O Polo não é um programa de pesquisa, é um programa de desenvolvimento regional. É um articulador de inovação para impactar o desenvolvimento de uma região e setor específicos, integrando competências públicas e privadas em um determinado polo geográfico, visando o compartilhamento do conhecimento. Com este foco, este conhecimento e inovação passam a se tornar referência, atraindo novos interesses e novos negócios.

 

POLO: Seria como colocar o “M” de mercado juntamente com a sigla P&D (Pesquisa e Desenvolvimento)?

PORTUGAL: Esta é a lógica que buscamos. Fazer com que o conhecimento gere riqueza para a sociedade. O conhecimento é igual diamante bruto debaixo da terra, ou seja, riqueza potencial. Só passa a ter valor na sociedade, quando alguém vai lá, burila, e o transforma numa jóia. O conhecimento é estratégico e fundamental, mas deve ser incorporado ao processo produtivo. Este é o grande salto da inovação.

 

POLO: Conhecendo a sua trajetória profissional, com muitas atividades relacionadas ao café, o Polo de Excelência do Café tem um carinho especial?

PORTUGAL: Sem dúvida. Sou produtor de café, na Zona da Mata, Rio Preto, há 25 anos. Acho uma lavoura maravilhosa, apaixonante. Vivi muito de perto todos os desafios da política cafeeira… Tive a oportunidade de participar da OIC (Organização Internacional do Café), do CNC (Conselho Nacional do Café) e conviver com as principais lideranças. Tenho realmente um carinho especial, até porque o café tem esta capacidade de manter as pessoas mais espertas, mais unidas. O momento do cafezinho é um momento de prazer, de alegria, de confraternização… Ainda sou produtor de café… Bebo café da minha propriedade há 25 anos e espero continuar enquanto eu viver. Isto me orgulha e me dá uma satisfação muito grande.

 

POLO: Qual a sua visão de futuro para o café?

PORTUGAL: O café cada vez mais terá uma demanda muito forte no mundo todo. As novas gerações já começam a ver o café como um produto de uso diferenciado, com várias formas de bebidas, cafeterias sofisticadas… Acho que esta relação com o estilo vai estimular o consumo. Acredito também nos estudos sobre a influência do café na saúde, cuja relação positiva vai ficar cada vez mais patente, baseada em conhecimentos científicos. Assim, o potencial é muito grande. Logicamente que o grande desafio está na área da produção, como a maioria das atividades agrícolas. O café é uma cultura perene, com forte barreira de saída da atividade, diferente da soja e milho. Desta forma, é preciso que o governo e a sociedade percebam que é necessário um tratamento diferenciado. Para isto o setor deve fazer a sua parte, que é organizar o conhecimento, as estatísticas, as informações, e uma estratégia de comunicação bem definida. A democracia é muito bom, mas dá trabalho. Prevalecem as opiniões de grupos sociais ou coalizões de grupos para ter maior poder de barganha. O setor deve entender bem isto e que a comunicação é parte das estratégias deste processo. A comunicação feita no Polo de Excelência do Café é um dos instrumentos democráticos para incentivar o debate e o compartilhamento de informação e conhecimento.          

 

      

Polo de Excelência do Café 

http://excelenciacafe.simi.org.br/

 

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