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Nesta segunda-feira (7), o presidente da EMATER-MG, Antônio Lima Bandeira, participou de uma reunião na Universidade Federal de Lavras (UFLA) para conhecer os projetos que vem sendo desenvolvidos pelas instituições parceiras do Polo de Excelência do Café (PEC/Café). Com a participação dos gerentes e coordenadores regionais da EMATER no Sul de Minas, foram apresentados diversos projetos de inovação para o setor cafeeiro, ressaltando, a necessidade de uma parceria institucional com a EMATER para o sucesso dos mesmos.
Dentre os projetos apresentados: Articulação Virtual do Café (Sergio Parreiras Pereira - IAC); Bureau de Informação e Desenvolvimento do Café (Luis Gonzaga de Castro Júnior - UFLA); Biofábrica do Agente Bioprotetor Cladosporium – o Fungo do bem (Sara Chalfoum- EPAMIG); Sistemas de Apoio à Decisão para Diagnose e Controle de Doenças de Plantas (Edson Pozza/Leandro- UFLA) e Mapeamento de Nematóide na Cafeicultura Mineira (Sônia Maria de Lima Salgado/EPAMIG). Antônio Bandeira demonstrou grande interesse nos projetos em desenvolvimento e ressaltou a participação da EMATER como parceiro institucional no desenvolvimento de soluções tecnológicas para a cafeicultura no Estado.
Entrevista exclusiva com o presidente Antônio Bandeira
EMATER-MG: Antônio Lima Bandeira,
um presidente com pés no chão e visão privilegiada
Desde fevereiro de 2010, o professor Antônio Lima Bandeira retornou à presidência da EMATER-MG, cargo que ocupou de março de 2001 a dezembro de 2002. Doutor em Economia Rural, o professor Bandeira é exemplo de profissional global e atuante em diferentes esferas institucionais. Foi reitor da Universidade Federal de Viçosa de 1992 a 1996, secretário adjunto de Estado da Agricultura, Pecuária e Abastecimento de Minas Gerais (Seapa), de 1999 a 2000, diretor técnico da Empresa de Pesquisa Agropecuária de Minas Gerais (Epamig), em 2003, presidente da MGS Administração e Serviços de Minas Gerais S/A, em 2004, e diretor geral da Univiçosa, no período 2004 a 2008. Pela atuação na pesquisa, ensino, extensão, produção e mercado, o POLO DE EXCELÊNCIA DO CAFÉ destaca o professor Bandeira como um articulador voltado para a aproximação entre os setores, em prol de uma agricultura mais integrada e fortalecida.
PEC/Café: Percebe-se que a EMATER-MG está evoluindo para acompanhar as exigências do mercado e se adequar aos novos atributos de competitividade. O senhor foi presidente da EMATER-MG no início da década, entre 2001 e 2002. Quais as mudanças fundamentais o senhor destacaria neste período?
Bandeira: A atuação do atual governador, com o “choque de gestão” e por meio de programas estruturadores, permeou todas as estruturas do Estado. A EMATER-MG se beneficiou com as melhorias desta gestão e os novos direcionamentos do governo do Estado, possibilitando inovações e uma diversificação na pauta de trabalho dentro da empresa. Apesar de ser uma empresa de assistência técnica e extensão rural, também é um braço do governo, responsável por políticas públicas importantes do ponto de vista da interação com outros programas para um resultado social comum. A EMATER-MG assumiu novas responsabilidades que tornam a assistência técnica mais efetiva.
PEC/Café: A incorporação desses novos papéis requer alguns cuidados…
Bandeira: Sim, e a ressalva que faço é que estas novas responsabilidades devem ser muito bem dosadas. Por exemplo, a EMATER-MG aceitou a execução do programa “Minas Sem Fome”, programa extremamente importante para as camadas mais carentes da população, com aplicabilidade no meio rural, especificamente na agricultura familiar. Mas esta nova responsabilidade também traz um aumento significativo da carga de trabalho. Houve novas contratações por meio de concurso, mas não foram suficientes. Assim, embora a empresa tenha se modernizado em muitos aspectos, ela ficou engessada nessa ação inovadora de adotar um modelo de extensão mais amplo e aberto. A EMATER-MG ampliou o seu papel, até mesmo como resultado da modernização do país, da estruturação social e da própria ciência. Este novo contexto demanda adaptações.
PEC/Café: Mas o público de referência permanece o agricultor familiar?
Bandeira: Sim, nosso público é preferencialmente o agricultor familiar. Mas a EMATER nunca deixou de atender o médio e o grande produtor quando ocorre demanda.
PEC/Café: O Certifica Minas Café é um programa que tem envolvido muitos esforços da Emater e seus resultados positivos tem ampliado a procura por adesão. Quais serão as próximas ações estratégicas para aperfeiçoar a certificação?
Bandeira: O Certifica Minas Café é um programa da Secretaria de Agricultura, Pecuária e Abastecimento (SEAPA) muito importante para o Estado e, principalmente, para o produtor. O programa tem tido uma expressiva aceitação, com resistências naturais por se tratar de um programa inovador. Tenho participado de reuniões para entrega de certificados, juntamente com o secretário Gilman Viana, um entusiasta do Programa, do coordenador Bernardinho Canguçu e com o apoio do IMA (Instituto Mineiro Agropecuário), órgão precursor da certificação em Minas, desde a criação do Certicafé na década de 90. As observações que faço são no sentido das normas do Programa se adequarem ainda mais à realidade dos produtores, simplificando o seu acesso e suas rotinas. Também deve passar por uma adequação para que as informações sejam registradas em mídia eletrônica. Do ponto de vista econômico, acredito que a valorização será uma consequência natural do processo da certificação. Os resultados surgirão quando o produtor absorver os princípios da certificação no contexto ambiental, social e pela ótica do mercado consumidor, que é o juiz final de todo o processo.
PEC/Café: O senhor tem uma trajetória profissional interessante, que possibilitou uma visão privilegiada de todos os setores: pesquisa, extensão, governo, mercado e produção. Como o senhor avalia a relação entre pesquisa e extensão? Tem evoluído ou ainda existe muito a percorrer?
Bandeira: Melhorou muito, mas tem muito espaço para melhorar. A universidade, por exemplo, segue a um modelo que enfatiza o ensino e a pesquisa, enquanto a extensão, embora presente em todo o conteúdo conceitual, foi muito limitada, não se estendendo ao campo verdadeiramente, exceto casos específicos de programas pontuais que deram certo. A extensão não se ampliou na mesma proporção que a pesquisa se desenvolveu, sobretudo com a implantação dos programas de pós-graduação a partir do final da década de 50. A pesquisa agropecuária deslanchou com um programa nacional implementado pela Embrapa, com projeção internacional, enquanto a extensão permaneceu no plano estadual e municipal, ainda com grande deficiência de recursos. A extensão evoluiu muito, contribuiu muito, enquanto ela pode, dentro de suas limitações. Nesta trajetória, a EMATER também diversificou o seu quadro de empregados, hoje, além de agrônomos, técnicos agrícolas, veterinários e zootecnistas, há nutricionistas, engenheiro de alimentos, pedagogos e outros profissionais. A grande novidade agora é a aprovação da Lei Geral de ATER que deverá provocar avanços importantes para afirmação da política pública de assistência técnica e extensão rural nos Estados.
PEC/Café: Então ainda existem barreiras…
Bandeira: Sim, ainda está aquém a interação entre o sistema de extensão e o sistema de pesquisa. Existem projetos conjuntos, pesquisadores e extensionistas sentam na mesma mesa para elaboração de projetos, para buscar fontes de financiamentos. Este é o caminho para uma maior aproximação. Mas também existem muitos projetos isolados. Tenho falado que é preciso encontrar um caminho melhor para casar as necessidades e aumentar esta interação. O café é um caso particular, pois com a criação do Consórcio de Pesquisa e Desenvolvimento do Café, de cuja criação tive o privilégio de participar como Reitor da UFV, esta interação foi facilitada.
PEC/Café: Foi justamente com os mesmos princípios de interação que o Polo de Excelência do Café foi criado, mas ampliando a interação não apenas no setor da pesquisa, mas incentivando a aproximação com as empresas e o governo para o desenvolvimento da inovação… Aproveitando o assunto café, qual a sua visão de futuro para o setor?
Bandeira: O que eu acho é que está havendo um redesenho da atividade em função da evolução natural de toda a economia nacional e global. Não adianta simplesmente o produtor ficar chorando passivamente por uma maior ação do governo. Conquanto nós produtores de café sintamos a ausência de uma política pública de defesa e proteção da cafeicultura nacional, enquanto atividade de altíssima relevância para o mercado de trabalho e geração de renda, torna-se necessário compreender o que está acontecendo com a atividade cafeeira. A força motora de todo o sistema se auto-regula e se controla naturalmente como mostra a história. Hoje o produtor tem que conviver com a migração rural-urbana que reduz a oferta de mão de obra no campo e aumenta seu custo, falta de melhores condições de vida no campo, falta de atratividade para os jovens permanecerem na fazenda, oferta abundante do produto e custos elevados de insumos, leis sociais, ambientais e trabalhistas que oneram ainda mais os custos. Tudo isto leva à falta de lucratividade da atividade gerando desestímulo. Todo este conjunto de situações conspira contra o desejo do cafeicultor que é ter mão de obra farta, barata e de alta qualidade. A oferta e a demanda globalizadas, com a existência de um mercado internacional oligapolizado, dominado por grandes tradings, tem o poder muito maior de influenciar a formação de preço do que a do setor produtivo, desarticulado. Também estamos passando por um momento de inflexão da curva climática com diferentes correntes de pensamento discutindo aquecimento X resfriamento global e prevendo inclusive efeitos redistributivistas da geografia das atividades agrícolas. Hoje, o homem tem mais capacidade de registrar, colher e analisar informações. Assim, ao longo dos próximos anos poderá ocorrer uma reestruturação de todas as atividades em função desses acontecimentos. De modo particular, pelas dificuldades que enfrento como cafeicultor na Zona da Mata, eu imagino que minha atividade no âmbito local irá sobreviver por mais um período de 10 a 15 anos. Outras regiões com aptidões tecnológicas intensivas em processos mecanizados e/ou vantagens climáticas mais amplas terão chances de sobrevivência e de crescimento. Mas o café no Brasil como um todo ainda tem muito futuro pela frente.
PEC/Café: O pequeno agricultor é o elo que mais sofre por estas conjunturas?
Bandeira: Mas também é o que tem mais chance de sobreviver quando comparado ao médio produtor. E, neste ponto, o papel da extensão é muito importante, com a implantação de políticas públicas voltadas para este segmento. A cafeicultura, pela densidade de uso da mão de obra, sobretudo em regiões de montanha, tem maior dificuldade de se adequar aos padrões tecnológicos e aos custos sustentáveis para se manter no mercado. Isso sem contar o sistema de juros para financiamentos que deveria ser revisto. O cafeicultor familiar terá que se reorientar dentro de novos paradigmas tecnológicos, gerenciais e negociais para tornar a exploração cafeeira sustentável e um bom negócio para a família.
Polo de Excelência do Café


